quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Eu recebi o que vos transmiti

Um dia, prestaremos contas a Deus do que fizemos com a mensagem que d’Ele mesmo recebemos.


Em qualquer tradição, a fidelidade à mensagem recebida é fundamental, seja em reverência àquele que anuncia a mensagem – e não quer vê-la distorcida ou modificada –, seja em respeito a quem ouve a palavra – e não quer, obviamente, ser enganado. Se não se procede assim, tudo se torna uma brincadeira de “telefone sem fio” e, no final, ao invés de comunicação, edifica-se uma torre de Babel, repleta de erros e confusão.
Ora, tudo isso é muito mais verdadeiro quando se trata da revelação de Deus, “o qual não pode enganar-se nem enganar” [1]. Alguém duvida da grande responsabilidade dos Apóstolos, que receberam de Cristo o encargo de “fazer discípulos entre todas as nações” e ensinar-lhes “a observar tudo o que vos tenho ordenado” [2], sabendo que de sua fidelidade dependia, por assim dizer, a eficácia da visita de Deus ao mundo? Qual também não é o tamanho da missão confiada a todos os cristãos, chamados a “ordenar segundo Deus as realidades temporais e impregnar o mundo com a força do Evangelho” [3]? Em nossas palavras e obras, ou deixamos transparecer o Deus verdadeiro ou exibimos um simulacro, moldado impiedosamente por nossas próprias mãos.
Por isso, hoje, mais do que nunca, as palavras do Apóstolo são importantes: “ Ego enim accepi a Domino quod et tradidi vobis – Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti” [4]. O Papa Bento XVI comenta que, mesmo para São Paulo, “originariamente chamado por Cristo com uma vocação pessoal, (...) conta sobretudo a fidelidade a quanto recebeu. Ele não queria ‘inventar’ um novo cristianismo, por assim dizer ‘paulino’” [5], mas tão somente transmitir aquilo que ele mesmo tinha encontrado. É essa atitude que nos dá “a garantia de que cremos na mensagem originária de Cristo, transmitida pelos Apóstolos” [6].
Este ponto é particularmente importante: da integridade e autenticidade da mensagem passada depende a própria salvação eterna das almas, que encontram em perigo de perder-se por conta de mensageiros infiéis.
Foi com coragem que o Papa Paulo VI denunciou a cultura de morte na encíclica Humanae Vitae, enfrentando uma dura oposição do mundo e de prelados em conluio com o mundo. A sua resposta aos que pretendiam atenuar a doutrina moral da Igreja em favor de certa “abertura” era bem clara:“Não minimizar em nada a doutrina salutar de Cristo é forma de caridade eminente para com as almas” [7].
O santo Papa Pio X também enfrentou dificuldades quando decidiu combater com pulso firme a heresia modernista. Mesmo depois da encíclica Pascendi e da instituição do juramento antimodernista, grande foi a resistência das pessoas, às vezes dentro da própria Igreja.
Um fato significativo com relação a um padre, de nome João Semeria, merece nota. Esse sacerdote, “antes e depois da ‘Pascendi’, mantinha estreita relação com os mais insignes modernistas” e a sua obra “deixava entrever que no seu afecto ao modernismo talvez houvesse uma parte de convicção pessoal”. Conta-se que “Pio X censurou-o um dia, porque ‘tendo recebido tantos dons de Deus para fazer o bem, os empregava em escrever livros não conformes com os ensinamentos da Igreja’. Semeria respondeu que o fazia para pôr a religião ao alcance de todos. O Papa acrescentou: –Alargais as portas para que entrem os que estão de fora, mas entretanto obrigais a sair os que estão dentro” [8].
Não importa que o número de fiéis pareça pequeno, mas que se ensine a verdadeira fé e se evangelize com destemor. Sem proselitismo, pois não se pode trair a Nosso Senhor, trocando-o pelos aplausos do mundo ou por alguns trocados, como fez Judas. Não foi o próprio Cristo quem comparou o Reino dos céus a um “grão de mostarda” [9]?
Além disso, não só o Deus Todo-Poderoso não se engana e não engana a ninguém, como não pode ser enganado. Quando alguém escuta a palavra do Evangelho mas prefere modificá-la e adaptá-la aos seus próprios gostos antes de passá-la adiante, não só está enganando as pessoas, como tentando enganar o próprio Deus. E d’Ele – lembra São Paulo – não se zomba: nolite errare Deus non inridetur [10]. Um dia, todos prestaremos contas a Deus do que fizemos com a mensagem que d’Ele mesmo recebemos.
Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Concílio Vaticano I, Constituição dogmática Dei Filius sobre a fé católica, 24 de abril de 1870:DS 3008
  2. Mt 27, 19.20
  3. Catecismo da Igreja Católica, 929
  4. 1 Cor 11, 23
  5. Audiência Geral, 3 de maio de 2006
  6. Papa Bento XVI, Audiência Geral, 31 de outubro de 2012
  7. Humanae Vitae, 29
  8. José Maria Javierre. Pio X. Editorial Aster: Lisboa, 1959, p. 299
  9. Cf. Mt 13, 31-32
  10. Gl 6, 7
Fonte: https://padrepauloricardo.org/blog/eu-recebi-o-que-vos-transmiti

Direção Espiritual: As provações


A Cruz não é a exceção, é a regra. Não é possível seguir Jesus sem ela.





As dificuldades e os sofrimentos da vida são, em geral, os motivos que levam as pessoas a procurarem uma direção espiritual. Ao sacerdote cabe iluminar com a luz do Evangelho essas situações tão delicadas, procurando dar um sentido para elas.
O famoso terapeuta Viktor Frankl, fundador da Logoterapia, afirmava que o sentido das coisas era fundamental para que se alcance o equilíbrio psíquico e, para isso, citava o filósofo ateu Friedrich Nietzsche que dizia que “o ser humano é capaz de suportar qualquer como, desde que tenha umporquê”.
Sendo assim, é preciso antes de mais nada, entender o significa a provação. Em grego, πειρασμός (peirasmos), é traduzida de duas maneiras: tentação e provação. Ambas possuem o mesmo conteúdo semântico, mas, ao longo do tempo, houve uma diferenciação técnica entre elas. A tentação é usada quando o sujeito é o Diabo, e provação quando o sujeito é Deus. Houve uma mudança de finalidade, como se vê.
O Diabo só tem um objetivo, pelo qual não descansa: fazer com o homem perca a sua alma. Logo, quando o sofrimento tem origem demoníaca, a finalidade é sempre essa: levar o homem para o fogo do inferno, para a morte eterna. Nesse viés, nem sempre é interessante para o Diabo tentar o homem pelo sofrimento, mais fácil é mantê-lo no conforto, usufruindo das benesses da vida material, pois assim estará dando sozinho passos largos rumo ao abismo.
Deus, ao contrário, não tenta o homem, conforme atesta a Sagrada Escritura: “Ninguém, ao ser tentado, deve dizer: ‘É Deus que me tenta’, pois Deus não pode ser tentado pelo mal e tampouco tenta a alguém.” (Tg 1,13) Isso não significa, porém, que Deus não permita que a provação aconteça. Ele tem uma outra finalidade. Ele prova os seus eleitos porque quer ver o amor e a santidade florescerem em seus amigos.
Ensina São Paulo, no famoso Hino da Caridade (ICor 13, 1-13) que se não tiver amor, nada há. O que santifica o homem é o AMOR. Portanto, não é uma questão de rezar ou não rezar, sofrer ou não sofrer, mas sim, de amar ou não amar. E querendo promover o amor, Deus permite as provações.
O exemplo de São Padre Pio é contundente. Ele tinha tentações, promovidas pelo Diabo, a fim de que ele vacilasse em sua fé e se perdesse. As provações, por sua vez, Deus as permitia para fortalecer o santo no amor.
Mas, por que Deus promove o crescimento do amor por meio do sofrimento? Por uma razão muito simples: a Cruz não é a exceção, é a regra. Não é possível seguir Jesus sem ela. “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz, cada dia, e siga-me.” (Lc 9, 23) Portanto, a cruz é a condição para seguir a Cristo.
Sendo assim, por que Deus quis desse modo? Porque no mundo onde reina o egoísmo e o pecado, somente pela purificação (cruz) é possível fazer florescer o amor. “ Sine sanguinis effusione non fit remissio”, ou seja, sem derramamento de sangue não há redenção (Hb 9,22), pois é assim que o amor manifesta a sua verdadeira natureza. Ele é um pacto de sangue, em que se afirma “eu derramo meu sangue, mas não desisto de você”.
Deus quer que o homem cresça em amor até a estatura de Cristo. Muitos cumprem com sua obrigação, realizam tudo com zelo, são bons cristãos, etc., mas são acometidos repentinamente pela vaidade e pela soberba. Acham-se melhores que os demais, pois estão “fazendo tudo certo”. Nesse momento é que Deus entra para “contrariar”, para começar a purificação. E como é Deus que age recebe o nome de purificação passiva.
Importante recordar que no crescimento espiritual existem três fases: 1. purgativa (iniciantes); 2. iluminativa (progredidos); 3. unitiva (perfeitos). Na passagem da primeira para a segunda fase, entra a fase da cruz. É ela que promove a purificação, pois a pessoa já fez tudo que podia sozinha e não é mais capaz de avançar espiritualmente, por isso Deus dá a oportunidade da pessoa progredir e se purificar.
Esse processo é diferente entre as pessoas de vida ativa e contemplativa. Os contemplativos são purificados por meio de aridez espiritual, ou como São João da Cruz chama de “noite escura dos sentidos”. Já nos ativos essa “noite” se manifesta em provações reais: doenças, perseguições, insucesso pastoral, em que Deus permite que ocorram.
A purificação é importante, pois prepara a pessoa para Deus. E ela acontecerá ou nesta vida ou no purgatório, isso é certo. Santo Tomás ensina que a maior das penas nesta terra equivale à menor das penas no purgatório, ou seja, é melhor sofrer aqui do que no purgatório.
O sofrimento deve ser encarado como uma graça, um dom de Deus. O Padre Reginald Garrigou-Lagrange, famoso autor espiritual, ao falar sobre a santificação dos sacerdotes em sua obra “As três vias e as três conversões”, cita o exemplo de um padre francês, muito bem relacionado, que foi caluniado e suspenso injustamente. Diante disso, prostrou-se ante o Cristo crucificado e O louvou, agradecendo pela oportunidade de amá-Lo.
Assim, diante da provação ou da tentação, necessário é refletir sobre o motivo pelo qual Deus está permitindo uma ou outra. E se Ele permite é porque deseja o crescimento espiritual de seus filhos, portanto, só resta ajoelhar-se diante Dele e repetir, como o padre francês: “Meu Deus, que oportunidade maravilhosa de vos amar!”
Fonte: https://padrepauloricardo.org/blog/direcao-espiritual-as-provacoes

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Não existe cristianismo sem cruz

A tentação de apresentar um cristianismo sem cruz revela-se, aos poucos, decepcionante, porque é somente na cruz que se descobre o amor de Deus



A cruz possui um significado inegociável para o cristianismo. É somente por meio do Cristo crucificado que se pode compreender “o poder de Deus” (cf. 1 Cor 1, 24) e a sua ação salvífica entre os homens. Por isso, na pregação evangélica de Jesus, tudo se resume a esta exortação: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (cf. Mt 16, 24). Não se trata de mera retórica, mas da apresentação de um dado incontestável: não há redenção sem cruz. O homem que quiser se salvar, deverá, necessariamente, apegar-se às cruzes do dia a dia, renunciando-se a si mesmo, tal qual o Filho do Homem fez no lenho da salvação.
Após aquele encontro fatídico na estrada para Damasco, São Paulo pôde perscrutar o significado autêntico da renúncia anunciada por Jesus. Viu que a lógica da cruz consiste num abandono confiante no “Evangelho da graça”, o qual nos apresenta a salvação não como prêmio que se conquista por meio de esforços puramente humanos. É dom gratuito; Deus confunde a “sabedoria” humana ao doar-se inteiramente ao homem — “o que é tido como debilidade de Deus é mais forte que os homens” (cf. 1 Cor 1, 24). São Paulo, por sua vez, fazendo frente às tendências de sua época, não deixou de anunciar aos seus interlocutores a “loucura” e o “escândalo” do madeiro santo: “Porque a linguagem da Cruz é loucura para aqueles que se perdem; mas poder de Deus para os que se salvam, isto é, para nós” (cf. 1 Cor 1, 18-23).
Nas pegadas do Apóstolo das gentes, a Igreja sempre procurou incutir na sociedade o necessário e urgente apelo do Crucificado, sobretudo quando estes esforços sofriam oposição da mentalidade pagã e autossuficiente do período. Ela testemunhou pelo derramamento de sangue — tal qual São Pedro, que se deixou crucificar de cabeça para baixo, achando-se indigno de ter uma morte igual à de Jesus —, pela vida abastada e longe das comodidades do mundo — a exemplo dos monges eremitas e dos irmãos e irmãs do Carmelo —, como também pela atualização diária e milagrosa do próprio sacrifício de Jesus, através da celebração da Santa Eucaristia. Em poucas palavras, pode-se dizer que a pregação da Igreja se fundamentou ordinariamente neste pequeno, mas não menos verdadeiro, princípio: “Quando vires uma pobre Cruz de madeira, só, desprezível e sem valor... e sem Crucificado, não esqueças que essa Cruz é a tua Cruz” [1].
Por outro lado, grande e persistente foi a oposição sofrida pelo anúncio do Cristo crucificado ao longo da história. Algo que não surpreende, todavia. Dada a realidade do pecado original, que faz com que os homens tenham os pensamentos do mundo e não os de Deus (cf. Mt 16, 23), o ser humano “é continuamente tentado a desviar o seu olhar do Deus vivo e verdadeiro para o dirigir aos ídolos (cf. 1 Ts 1, 9), trocando ‘a verdade de Deus pela mentira’ (cf. Rm 1, 25)” [2]. De fato, para uma mentalidade submissa àquilo que São João chamava de “concupiscência da carne”, “concupiscência dos olhos” e “soberba da vida”, isto é, os ídolos que o mundo oferece, a cruz pode parecer uma realidade muito pouco atraente e sem sentido [3]. Nestes dois últimos séculos, em que não raras vezes os santos padres tiveram de lidar com propostas subversivas, dentro e fora da Igreja, cuja finalidade principal era substituir o Cristo crucificado por uma concepção cristã praticamente ateia, esse drama se revela ainda mais grave.
É particularmente notório um episódio da luta de Pio XI contra a ideologia nazista. Por ocasião da visita de Hitler a Roma, tendo se espalhado, a pedido de Mussolini, as suásticas do nacional-socialismo por toda a cidade eterna, o Papa Ratti ordenou que nenhuma bandeira fosse exposta nas sacadas do Vaticano, foi para Castel Gandolfo, e mandou escrever no L’Osservatore Romano que o ar de Roma estava irrespirável e que a ele não agradava nem um pouco ficar num lugar onde havia uma cruz que não era a de Cristo. Algo semelhante ocorreu com João Paulo II, quando da sua viagem à Nicarágua, em 1983. O governo sandinista, apoiado por padres ligados à Teologia da Libertação, havia organizado um infeliz protesto contra o papa. Na missa campal, foram colocados no altar, de propósito, cartazes de guerrilheiros em vez do crucifixo. O então secretário pessoal do santo papa, Cardeal Stanislaw Dziwisz, conta em suas memórias [4]:
[...] O Santo Padre, praticamente sozinho, enfrentou o tumulto e fez frente aos provocadores. Foi inesquecível a cena em que os sandinistas agitavam suas bandeiras rubro-negras, enquanto ele, de cima do palco, opunha-se a eles, levantando na direção do céu o báculo com o crucifixo na ponta.
Também dentro da Igreja esses confrontos contra a cruz de Cristo não faltaram. Nas sessões do Concílio Vaticano II, infelizmente, muitos foram os que sugeriram o abandono do sinal da cruz durante a liturgia, por este supostamente já não mais corresponder ao espírito do homem moderno [5]. Nas universidades de teologia, por sua vez, “a maneira blasfema como então se zombava da cruz como sendo um sadomasoquismo” era de se lamentar [6]. O então padre Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI, escreve a respeito: “Vi o rosto horrível, sem disfarce, dessa piedade ateia; vi o terror psicológico, desenfreado, com o qual se conseguia sacrificar toda consideração moral como restante de um espírito burguês, quando se tratava da meta ideológica” [7].
Como nos tempos de São Paulo, a sociedade moderna não é simpática à mensagem da cruz de Cristo. Ao contrário, há certamente aquele número de indivíduos que, ludibriados pelas promessas ideológicas, depositam a própria esperança em obras e esforços humanos, a fim de alcançar um paraíso aqui na terra. É a tentação do neopelagianismo. Mutatis mutandis, como também não pensar nos “profetas” da técnica, verdadeiros gurus do modernismo, que, “fiando-se demasiadamente nas descobertas atuais”, julgam desnecessária a mensagem evangélica, dando margem ao ceticismo e ao agnosticismo [8]? And last, but not least, que dizer das seitas e heresias que proliferam, fazendo com que o cristianismo e, por conseguinte, a Igreja deixem de ser a Mater et Magistra da sociedade, como gostava de definir São João XXIII, para se converter em uma mera instituição filantrópica ou sentimentalista?
A Igreja deve seguir o caminho do Esposo. Renegar a cruz seria como que um adultério. A tentação de apresentar um cristianismo sem cruz, no intuito de satisfazer o gosto da clientela, aos poucos, mostra-se frustrante. Sem o Cristo crucificado se perde o dom gratuito do Pai que, amando o mundo de tal maneira, entrega Seu Filho único em holocausto. É nisto que conhecemos o amor. Não há mensagem mais urgente, mais necessária, mais imprescindível para o homem que a mensagem do amor de Deus. Nenhum esforço humano, nenhuma sabedoria humana, nenhuma teologia da “libertação” ou da “prosperidade” é realmente capaz de libertar o homem e fazer com que ele progrida na santidade. É Cristo crucificado que nos traz a redenção, porque foi para isto que Ele se manifestou: “para destruir as obras do demônio” (cf. 1 Jo 3, 8).
É, pois, na morte crucificada que se encontra a verdadeira vida.
Por Christo Nihil Praeponere

Referências:

  1. Caminho, n. 178.
  2. João Paulo II, Carta Enc. Veritatis Splendor (6 de agosto de 1993), n. 1
  3. cf. 1 Jo 2, 16
  4. SVIDERCOSCHI; DZIWISZ; Gian Franco, Stanislaw. Uma vida com Karol. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, pág. 109.
  5. WILTGEN, Ralph. O Reno se lança no Tibre— O Concílio desconhecido. Niterói: Permanência, 2007, pág. 43.
  6. RATZINGER, Joseph. Lembranças da minha vida. São Paulo: Paulinas, 2007, pág. 118.
  7. Ibidem
  8. Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et spes (7 de dezembro de 1965), n. 57
Fonte: https://padrepauloricardo.org/blog/nao-existe-cristianismo-sem-cruz

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Testemunho de um sacerdote condenado à morte pelo regime comunista fez o Papa chorar

O Pe. Ernest Simoni e o Papa Francisco na Albânia (Captura tela CTV)

TIRANA, 21 Set. 14 / 06:55 pm (ACI/EWTN Noticias).- Entre lágrimas, o Papa Francisco estreitou em um forte abraço ao sacerdote Ernest Simoni, de 84 anos, um dos últimos sobreviventes da terrível perseguição comunista na Albânia, quem foi encarcerado em condições desumanas e se livrou da pena de morte que sofreria devido à sua fidelidade à Igreja e ao Sucessor de Pedro.
Durante sua visita a Tirana, o Papa Francisco teve um encontro na Catedral de São Paulo com os sacerdotes, religiosos, religiosas, seminaristas e movimentos leigos da Albânia, onde escutou com atenção o testemunho do Padre Simoni.
O presbítero relatou que em dezembro de 1944 começou na Albânia um regime comunista ateu que buscou eliminar a fé e o clero com “prisões, torturas e assassinatos de sacerdotes e leigos durante sete anos seguidos, derramando o sangue dos fiéis alguns dos quais antes de ser fuzilados gritavam: ‘Viva Cristo Rei!’”.
Em 1952, as autoridades comunistas reuniram os sacerdotes que sobreviveram ao regime e ofereceram a liberdade em troca de distanciar-se do Papa e o Vaticano, proposta que estes jamais aceitaram. Assim, o Pe. Simoni relatou que antes de ser ordenado sacerdote estudou com os franciscanos por 10 anos desde 1938 até 1948, e quando seus superiores foram fuzilados pelos comunistas seguiu seus estudos clandestinamente.
“Dois anos terríveis se passaram e no dia 7 de abril de 1956 fui ordenado sacerdote, um dia depois da Páscoa e na Festa da Divina Misericórdia celebrei minha Primeira Missa”.
Em 24 de dezembro de 1963 ao concluir a Missa de Vésperas de Natal, quatro oficiais apresentaram o decreto de prisão e fuzilamento, e o padre foi algemado e detido. No interrogatório lhe disseram que seria enforcado como um inimigo porque disse ao povo “que morreremos todos por Cristo se for necessário”.
As torturas o deixaram em muito mal estado. “O Senhor quis que continuasse vivendo”. Entre os cargos que lhe imputaram figurava celebrar uma Missa pela alma do Presidente John F. Kennedy assassinado um mês antes de sua prisão, e por ter celebrado missa, por indicação do Papa Paulo VI, por todos os sacerdotes do mundo.
“A Divina Providência quis que minha condenação à morte não fosse realizada imediatamente. Na sala trouxeram um outro prisioneiro, um querido amigo meu, com o propósito de me espiar, e começou a falar mal do partido”, recordou.
“Eu de todos os modos respondia que Cristo tinha nos ensinado a amar os inimigos e a perdoá-los e que nós devíamos nos empenhar no bem do povo. Essas minhas palavras chegaram aos ouvidos do ditador que após alguns dias livrou-me da pena de morte”, explicou o P. Simone.
Os comunistas trocaram sua sentença de morte por uma pena de 28 anos de trabalhos forçados. “Trabalhei nos canais de esgotos e durante o período da prisão celebrei a Missa, confessei e distribuiu a comunhão às escondidas”, relatou.
O sacerdote foi liberado quando caiu o regime comunista e começou a liberdade religiosa. “O Senhor me ajudou a servir tantos povos e a reconciliar a muitas pessoas afastando o ódio e o diabo dos corações dos homens”, assegurou.
“Santidade, seguro de poder expressar a intenção dos presentes eu peço que pela intercessão da Santíssima Mãe de Cristo, o Senhor lhe dê vida, saúde e força na guia do grande rebanho que é a Igreja de Cristo, Amém”, concluiu o sacerdote antes de dar ao Papa um abraço que comoveu o Pontífice às lágrimas. 

Fonte: http://www.acidigital.com/noticias/testemunho-de-um-sacerdote-condenado-a-morte-pelo-regime-comunista-fez-o-papa-chorar-87440/

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Por que batizar uma criança?

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“Crê no Senhor Jesus e serás salvo, como também todos os de tua casa”

O batismo é um sinal visível da realidade oculta da salvação, de acordo com o Catecismo da Igreja Católica, número 774. A Igreja ensina isso a respeito de todos os sacramentos; nesse caso, o sacramento se mostra visível pelo sinal da água, que é derramada sobre a criatura. Por meio dessa graça, a pessoa se torna filho ou filha de Deus.

No início da Igreja, os apóstolos obedeceram ao mandato do Senhor: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19). No livro dos Atos dos Apóstolos, vemos que os apóstolos foram testemunhas do principal evento da humanidade: a Morte de Jesus por amor à humanidade e Sua Ressurreição.
Os apóstolos anunciavam o Cristo, e aqueles que aderiam a Ele eram batizados. “Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado” (Mc 16,16). Quando Pedro anunciou Jesus para a família de Cornélio, este e toda sua família foram batizados. Ora, será que só havia adultos na família? Quando o carcereiro fez uma experiência de Deus, o que Paulo disse a ele?“Crê no Senhor Jesus e serás salvo, como também todos os de tua casa”; depois, completou o autor dos Atos dos Apóstolos: “E, imediatamente, foi batizado, junto com todos os seus familiares (cf. Atos 16,31-33). Será que as crianças não faziam parte da família?
Jesus sempre quis bem às crianças. “Trouxeram-lhe também criancinhas, para que ele as tocasse. Vendo isso, os discípulos as repreendiam. Jesus, porém, chamou-as e disse: ‘Deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais, porque o Reino de Deus é daqueles que se parecem com elas. Em verdade vos declaro: quem não receber o Reino de Deus como uma criancinha, nele não entrará’” (Lc 18, 15-17).
Podemos constatar que há batismo de crianças no tempo da Igreja primitiva, pois Jesus quer bem a elas. Se ganho algo bom, quero partilhar com os meus. Os adultos fizeram uma experiência com Jesus Salvador e foram batizados e conquistaram esse sacramento também para os seus filhos.
Em nossa Igreja, os sacramentos da iniciação são: batismo, Eucaristia e crisma, sendo o primeiro a porta de entrada para os demais. Após o batismo, os pais e padrinhos se tornam os principais evangelizadores e catequistas dos neobatizados, vão ensiná-los sobre a fé e proporcionar-lhes experiências de oração. O padrinho deve ser presente e dar testemunho de fé em Jesus Cristo, esse é o maior presente que pode e deve dar ao seu afilhado.
O batismo, além da graça da filiação divina, concede o perdão dos pecados. A criança possui pecado? Sim, ela possui o pecado original, que significa o mal cometido por Adão e Eva. Eles foram chamados à santidade original – todos os homens foram e são chamados à santidade em Adão e Eva. Uma vez que os primeiros pais pecaram pela desobediência, a santidade original foi ferida. O apóstolo São Paulo confirmou isso quando disse: “Assim como, pelo pecado de um só, veio para todos os homens a condenação…” Mas como uma criancinha pode ter pecado?
O pecado não foi cometido e sim transmitido. O Catecismo da Igreja Católica ainda ensina “é um pecado «contraído» e não «cometido» um estado, não um ato.” (n. 404), e a consequência dele é a morte da alma. Por essa razão, a Igreja confere o batismo às crianças. Que desgraça foi o pecado original! No entanto, o mesmo São Paulo continuou: “Assim também, pela obra de justiça de um só [Cristo], virá para todos a justificação que dá a vida” (Rm 5,18). Jesus Cristo concede a graça da santidade original graças à Sua Páscoa e todo aquele que O acolhe e é batizado e salvo (cf. Mc 16,16).

Enfim, o batismo é um sacramento, uma graça sobrenatural. Já ouvi testemunhos em que os pais disseram que a criança havia melhorado após o batismo ou que nasceu com problemas e tiveram de batizá-la ali mesmo no hospital, às pressas, e ela saiu de lá sadia. Não é superstição. O batismo é um sinal visível de uma graça invisível, pode e é recomendado pela Igreja, insere a pessoa na linda família cristã, perdoa o pecado original e devolve a santidade original, a qual, a partir daí, deve ser ajudada com os pais, padrinhos e pela comunidade de fé.

Padre Marcio

Padre Márcio do Prado, natural de São José dos Campos (SP), é sacerdote na Comunidade Canção Nova. Ordenado em 20 de dezembro de 2009, cujo lema sacerdotal é “Fazei-o vós a eles” (Mt 7,12), padre Márcio cursou Filosofia no Instituto Canção Nova, em Cachoeira Paulista; e Teologia no Instituto Mater Dei, em Palmas (TO). Twitter: @padremarciocn
Fonte: http://formacao.cancaonova.com/igreja/catequese/por-que-batizar-uma-crianca/

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

É preciso que haja profetas


Deus nos chama a ser profetas, pois só assim conseguirá atingir o Seu povo. Assim como Jesus se fez Homem para estar no meio de nós, adquiriu a cultura, a linguagem, os modos daquele povo para evangelizá-los e trazê-los de volta para Deus, assim somos nós, profetas no meio do povo. 

Podemos até pensar que, se o Filho de Deus tivesse vindo com toda a Sua glória e poder, o mundo se converteria mais facilmente. Mas não foi isso que Deus quis, Jesus veio a nós como Homem.

É preciso que haja profetas na roça e no campo, nas pessoas que trabalham, que saem de manhã, pegam ônibus lotado e voltam para casa cansados. Pessoas que têm a mesma linguagem desse povo sofrido, que passa pelas mesmas situações e pelos mesmos problemas; profetas no meio estudantil, entre os professores, nos esportes, na área de saúde. São médicos, enfermeiros, psicólogos, dentistas que levam a evangelização a seus pacientes. Em todos os meios devem existir profetas.



Seu irmão,

Monsenhor Jonas Abib
Fundador da Comunidade Canção Nova

Fonte: http://cancaonova.com/portal/canais/pejonas/pejonas_msg_dia.php

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Como faço para ouvir a voz de Deus?


Você já ouviu a voz de Deus? Como saber se realmente é Ele quem fala e não nós mesmos?
No início da Bíblia, encontramos um verbo que é vinculado a Deus em todo o Livro Sagrado: “Deus disse” (Gn 1,3). Ao longo de toda a Escritura, podemos observar que o Senhor mantém uma relação íntima com o homem, a qual é baseada no diálogo. O próprio Livro da Bíblia é um meio que Ele usa para nos falar. Mas você já ouviu a voz de Deus? Como saber se realmente é Ele quem fala, e não nós mesmos? Ele fala apenas com pessoas perfeitas?
Podemos nos assustar ao observarmos a vida dos santos e notar o nível de diálogo que eles mantinham com Deus. Santa Teresa, por exemplo, em certa ocasião em que viajava, caiu em uma poça de lama. Então, olhou para o céu e disse: “Senhor, por que tantas dificuldades no caminho se estou cumprindo Tuas ordens?”. O Senhor lhe respondeu: “Teresa, não sabes que é assim que trato os meus amigos?”. Ela retrucou: “Ah, Senhor, então é por isso que tens tão poucos!”.
Como ouvir a Deus?
Deus deseja ser próximo do homem, criar intimidade e amizade com ele. Observemos, por exemplo, a relação de Deus com Adão. Ao criá-lo, o Senhor permitiu que ele desse nome a toda criação e o alertou sobre o fruto proibido. O Senhor Deus também lhe disse: ‘Não é bom que o homem esteja só; vou dar-lhe uma ajuda que lhe seja adequada’” (cf. Gn 2,15s). Vejamos a proximidade com que Deus conservava o homem! Ele nos criou para convivermos em Sua intimidade.
Existe um caminho a ser seguido para chegar a uma escuta íntima de Deus, porém, é um caminho, não uma fórmula, pois há grande erro em buscar uma uniformidade quando queremos escutar o Senhor. Ele nos fez únicos e nos ama com um amor particular, portanto, nos fala de forma individual. O Senhor usa da linguagem que estamos acostumados, fala no idioma que compreendemos.
Vamos, então, observar alguns passos importantes nessa experiência:
- Buscar a Deus. Isso é obvio, mas precisa ser dito. Não ouviremos o Senhor se não o buscarmos. Deus é uma pessoa, e quando queremos dialogar com uma pessoa, procuramos meios para chegar a ela. Busque momentos para estar com o Senhor, só com Ele, sem celular, sem música, sem leitura, apenas com o Pai. “Quando rezar, entre no seu quarto, feche a porta e reze ao seu Pai” (Mt 6,6).
- Fale o que você quer falar. Muitos sofrem, pois ficam com a cabeça cheia durante a oração, pensam em muitas coisas, veem muitas situações e se distraem facilmente. O que pode nos ajudar é, ao chegarmos à capela, falarmos para Deus tudo o que queremos, gastar uns dez minutos de limpeza da mente, falar do cansaço, do trabalho, da família, e, após isso, silenciar um pouco.
- O desejo de ouvir, às vezes, atrapalha. Muitas vezes, criamos ansiedade e expectativas que nos atrapalham. A tensão não colabora para que nosso coração encontre o coração de Deus. É importante que haja liberdade em estar com Ele, sem obrigações, sem cobranças. Não cobre Deus para que fale, e não se cobre uma atitude ou a necessidade de fazer alguma coisa. Esteja livremente junto d’Ele.
- Silencie. Estamos falando de diálogo, uma grande dificuldade da relação humana, pois não aprendemos a ouvir o outro. A agitação e o ritmo acelerado que a sociedade vive nos deixam sempre apressados, querendo tudo para agora. Assim, não deixamos as pessoas falarem, nos antecipamos à fala do outro, queremos adivinhar o que ele vai dizer. Do mesmo jeito que agimos com as pessoas, na agitação, transferimos para Deus. Após um momento de oração, de dizer tudo o que quer a Deus, é importante dar tempo para que Ele fale, é necessário silenciar no ambiente e em nosso coração. O princípio de uma boa escuta é dar tempo para o outro falar.
Deus realmente falou comigo?
Deparamo-nos, às vezes, com essa dúvida. Para isso, precisamos sempre ter em mente que o Senhor não se contradiz. Por isso, se aquilo que ouvirmos for contra alguma lei que Ele já instituiu, contra o amor ao outro ou contra a Igreja, ficará fácil saber que não vem d’Ele.
Conforme criamos intimidade com o Senhor, reconhecemos com mais rapidez Sua voz em nossa consciência. Ele também nos fala nos fatos, na Bíblia, por meio de uma música ou por intermédio de outra pessoa. Particularmente, eu já O ouvi num momento de contemplação a Jesus Eucarístico. O Senhor também já falou diretamente ao meu coração. Em um outro momento, Ele respondeu minha pergunta através de um fato: eu queria saber se era da vontade d’Ele que algo acontecesse em minha vida, e as coisas se esclareceram de tal forma, que eu vi a mão de Deus agindo sobre mim.
Diante das experiências que trago, há um ponto importantíssimo que prova, realmente, se Deus falou comigo. Quando Ele fala, Suas palavras ecoam por muito tempo, e o que Ele diz se cumpre. “O que disse, executarei; o que concebi, realizarei” (Isaías 46,11). Deus é fiel ao que diz! E o que Ele fala fica gravado em nós, não se apaga, porque Sua voz ecoa em nossa existência.
O Senhor deseja cultivar, com cada um de Seus filhos, uma relação pessoal e íntima. Reze  e peça essa intimidade ao Espírito Santo, pois Ele é o mediador.
Que o Senhor nos dê um coração aberto e ouvidos atentos à Sua voz.
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Paulo Pereira

José Paulo Neves Pereira nasceu em Nossa Senhora do Livramento (BA). É missionário da Comunidade Canção Nova e atua no setor de Novas Tecnologias da TVCN. Twitter: @paulopereiraCN

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A linda missão de ser pai é um reflexo de Deus


Queridos pais, queremos que saibam ser nosso interesse apenas uma coisa, que vocês nos mostrem “o Pai”.
“Filipe disse: ‘Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta’. Jesus respondeu: Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me conheces? Quem me viu, tem visto o Pai. Como é que tu dizes: ‘Mostra-nos o Pai’? Não acreditas que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo; é o Pai que, permanecendo em mim, realiza as suas obras. Crede-me: eu estou no Pai e o Pai está em mim. Crede, ao menos, por causa destas obras” (Jo 14,8-11). Bendita seja a aparente ingenuidade de Filipe, desejando ver o Pai! Daqui parte nossa reflexão para o Dia dos Pais, comemorado no segundo domingo de agosto, quando a Igreja Católica no Brasil inicia também a Semana da Família. Torna-se ainda mais oportuno abordar este tema pela proximidade da Assembléia Extraordinária do Sínodo dos Bispos a respeito da família.
A vocação dos homens que se fazem pais tem a sua origem na paternidade do próprio Deus, sabendo inclusive que se aprende mais sobre família e sobre as relações entre as pessoas olhando para o alto, para a Santíssima Trindade. Paternidade, filiação, fraternidade criatividade, todas as desejáveis características das pessoas podem encontrar no próprio Deus sua fonte. E permitam-me todos os pais envolvê-los na voragem de amor que é a vida divina, convidando-os a abrir o coração e redescobrir sua vocação e sua missão na família e na sociedade.
A linda missão de ser pai
Queridos pais, todos vocês foram e são filhos! Ninguém é fonte absoluta de uma família. Desejo-lhes a capacidade de olhar para trás e identificar o melhor que possa existir na história de sua família. Há valores que passam de geração em geração e a dignidade de sua família não se encontra apenas no nome, sem dúvida importante, mas nas coisas boas de que vocês são guardiães. Vocês podem entrar em seu próprio coração, recolhendo, como a criança que existe em cada um, as boas sementes transmitidas pelos antepassados. Por falar em nome, já perceberam que são vocês que o conservam e transmitem às gerações sucessivas? Sejam, pois, dignos de manter acesa esse facho aceso da dignidade das gerações!
Dentre os muitos tesouros que lhes foram confiados, é próprio da missão paterna ser a referência de autoridade na família. Autoridade e não autoritarismo! E autoridade verdadeira vem de dentro, a partir de convicções claras e objetivos a serem alcançados. Chama à atenção a força com que Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador, se faz presente em momentos críticos da vida de seus discípulos. Numa travessia do Mar da Galileia (Cf. Mt 14, 22-33), barca agitada pelas ondas, vento contrário, homens medrosos que veem Jesus caminhando sobre as águas e pensam estar diante de um fantasma. “Coragem! Sou eu! Não tenhais medo!” É tempo de pedir a Deus, na comemoração do Dia dos Pais, que a força viril dos que receberam esta vocação seja restaurada em nossas famílias. Redescubram a coragem para ajudar a família na superação do medo dos fantasmas! Sejam capazes de discernir entre o vento, os terremotos e o fogo (Cf. 1 Rs 19, 9-13), ajudando a identificar o murmúrio da brisa leve em que o Senhor Deus se manifesta. Brote dos lábios e do coração de todos os pais de família, sustentados no mar na vida pelas mãos firmes do Senhor Jesus, a profissão de fé a ser renovada no domingo dos pais: “Verdadeiramente, tu és o filho de Deus” (Mt 14,33). Afinal, são adultos estes que realizam uma missão de tamanha importância. Deles pedimos um sinal que nos ajude a firmar a confiança no Senhor.
Mas para chegar ao discernimento pedido aos pais de família, devem estes tirar o tempo necessário para, como o profeta Elias (Cf. 1 Rs 19, 9-10), orar confiantemente em nome da própria família. Proponho, por ocasião do Dia dos Pais, que as refeições nas casas sejam abençoadas com uma oração feita pelo pai: “Senhor Deus, que conservais tudo o que criastes e não deixais de conceder aos Vossos filhos o alimento necessário, nós Vos agradecemos por esta mesa fraterna, preparada para alimentar e fortalecer o nosso corpo; nós Vos rogamos que também nossa fé, sustentada com a Vossa Palavra, cresça pela busca constante do Vosso Reino. Por Cristo, nosso Senhor. Amém!” Esta oração pode ser feita sempre às refeições, confiando-a cada dia a um dos membros da família. Entretanto, a oração silenciosa, feita pelo pai de família, com confiança total no Pai do Céu, com o qual lhe foi dada a graça de partilhar a responsabilidade pelo lar, não pode faltar. Só assim terá forças necessárias para enfrentar as muitas tormentas do caminho.
Durante muitos séculos, o pai de família foi considerado o suficiente provedor das necessidades de todos. As esposas assumiam a educação dos filhos e as tarefas domésticas. Mudam os tempos, as mulheres também têm atividades laborativas fora de casa, as tarefas são compartilhadas e a responsabilidade abraçada a dois. No entanto, valha hoje um apelo aos pais de família justamente pela sua missão ligada ao trabalho. Faz parte da dignidade do ser humano ganhar o pão com o suor do próprio rosto, mesmo quando seu trabalho não for prioritariamente ligado ao esforço físico. Gratidão a Deus providente que permite aos pais levarem o necessário à família e ao sustento dos filhos. Apreensão diante das múltiplas dificuldades existentes para que o trabalho seja adequadamente remunerado e até para que haja postos de trabalho para toda a população. Oração fervorosa, para que aos pais sejam dadas essas condições indispensáveis.
A missão dos pais de família pode se expressar no pedido feito por Filipe, cuja ingenuidade agradecemos. Queridos pais, queremos que saibam ser de nosso interesse apenas uma coisa, que vocês nos mostrem “o Pai”. Sejam de tal forma parecidos com o Pai do Céu, que trabalha sempre! Ajudem-nos a chamar o Pai de Jesus de “Pai Nosso”, ensinando-nos a rezar cada parte da oração que brotou de Seu coração para ser entregue a nós. Sejam transparência do amor de Deus, tão infinito que se faz pequeno e próximo de cada filho. Sejam para suas esposas companheiros fiéis, amigos afetuosos, como Deus os pensou. Contamos com a firmeza de vocês e, quando esta lhes faltar, saibam que a Igreja reza por vocês e quer sustentá-los na tarefa exigente e gratificante que lhe foi entregue. Obrigado por vocês serem testemunhas da Providência de Deus para as famílias! Confiem nessa Providência para todos os passos a serem dados na vida! Saibam valorizar as rugas, os achaques da idade, o cansaço, para muitos a calvície ou os cabelos brancos. Tudo encontre seu sentido na entrega alegre da vida, com a qual vocês constroem a própria dignidade e felicidade. Deus os abençoe!

Dom Alberto Taveira Corrêa

Dom Alberto Taveira foi Reitor do Seminário Provincial Coração Eucarístico de Jesus em Belo Horizonte. Na Arquidiocese de Belo Horizonte foi ainda vigário Episcopal para a Pastoral e Professor de Liturgia na PUC-MG. Em Brasília, assumiu a coordenação do Vicariato Sul da Arquidiocese, além das diversas atividades de Bispo Auxiliar, entre outras. No dia 30 de dezembro de 2009, foi nomeado Arcebispo da Arquidiocese de Belém - PA.
Fonte: http://formacao.cancaonova.com/familia/pais-e-filhos/a-linda-missao-de-ser-pai-e-um-reflexo-de-deus/